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Viagens com Especialistas
VIAGEM EM GRUPO
22 refeiçõesÉ objectivo desta nossa viagem recriar o mais fielmente possível a primeira parte de uma das mais admiráveis epopeias terrestres de todos os tempos. Foi seu protagonista o leigo jesuíta açoriano Bento de Góis, viajante da centúria de Seiscentos que, devido à sua energia, tacto diplomático e domínio dos idiomas locais, foi o escolhido para a árdua missão de partir da Índia, no ano de 1603, em busca do tal mítico reino do Cataio, onde se acreditava existirem cristandades perdidas.
Aconselhado pelos seus superiores sedeados em Agra, Góis – com cabelo comprido e barba até ao peito – envergava o traje dos arménios: cabaia e turbante. A tiracolo trazia arco e estojo com flechas; à cintura, uma cimitarra. Procurava assim passar despercebido, disfarçado de mercador. Por precaução, mudara até de nome. Era agora Abdulla Isai, ou seja,“Servo de Deus”.
A extraordinária jornada que o levou das planícies do Punjab à Grande Muralha da China, atravessando os píncaros do Hindu Kush e visitando diversos e obscuros reinos e emirados da Ásia Central, foi reconstituída pelo jesuíta Matteo Ricci, que na altura dirigia a missão católica em Pequim, com base em fragmentos de apontamentos redigidos por Góis e com o auxílio da memória do seu inseparável companheiro de viagem, o arménio Isaac.
Depois de vários anos na estrada, já muito doente, Bento de Góis acabou por falecer em Suzhou (actual Jinquan), junto às portas da Grande Muralha e do deserto do Gobi. E com o homem desapareceu a obra: o diário que religiosamente conservava foi roubado e posteriormente destruído, pois nele estavam anotados os nomes de várias pessoas que lhe deviam dinheiro.
A respeito da imensa lacuna que ficou por preencher, Henri Bernard afirma o seguinte no seu livro Le Frère Bento De Goes chez les Musulmans de la Haute Asie (1603‐1607): “De acordo com os maiores historiadores, se o diário de Bento de Góis se tivesse conservado intacto, seria provavelmente a relação mais importante do ponto de vista geográfico das regiões que ele atravessou”.
Como resume bem o geógrafo, explorador e cartógrofo Ernesto de Vasconcelos, “foi reservada a um português a glória de ter primeiro atravessado de Ocidente para Oriente, os Pamires”.
O padre Fernão Guerreiro, cronista dos feitos dos abnegados religiosos de antanho, incluiria o feito do açoriano na sua Relação Anual das Coisas que Fizeram os Padres da Companhia de Jesus nas suas Missões (1603‐1611), com o importante acréscimo de duas cartas redigidas pelo punho de Góis.
O relato completo, porém, à semelhança de tantas outras descrições de viagens levadas a cabo por ilustres portugueses, ficaria inédito até 1911.
A extraordinária viagem de Bento de Góis demorou quatro anos, e se contabilizarmos a distância percorrida desde Goa até à fronteira ocidental do Império do Meio, atingimos a impressionante soma de 6.000 quilómetros.
É uma parte substancial desse trajecto que iremos reconstituir, homenageando e revivendo desse modo o nome do herói português. O restante trajecto, já no interior da China, será recriado em 2027.
PROGRAMA
( ↑ Clique em cada um dos separadores para ver a respetiva informação)
Marcamos encontro no aeroporto de Istambul.
A viagem que nos preparamos para fazer levar-nos-á das planícies do Hindustão aos picos em agulha do Hindokush. É uma viagem com um pouco de tudo. Antropologia, etnologia, arqueologia e muita, muita geografia. Da mais espectacular que se pode imaginar. O nosso voo tem como destino Lahore, no Paquistão, via Istambul.
Numa viagem de natureza histórico-cultural impõe-se um olhar a esta urbe, ponto de passagem de inúmeros trotamundos portugueses de antanho. Iniciamos o nosso périplo com uma visita ao forte de Lahore, antiga residência do imperador Acbar. Foi aí que Bento de Góis se tornou amigo desse sincrético e tolerante monarca, que ao português viria a confiar diversas missões diplomáticas. Um passeio pela cidade intramuros – a destacar os minaretes e domos da magnífica mesquita de Badshahi – ajuda-nos a ‘sentir a época’. A propósito: deleitemo-nos com os jardins Shalimar, exemplo-mor do elegante requinte da arquitectura mogol.
Noite – Dormida no Hotel Nishat ou similar
Forte de Lahore
Bento de Góis deixou Lahore disfarçado de mercador arménio e acompanhado por dois gregos: o padre Leo Griman e o comerciante Demétrio. Ao grupo inicial, Góis acrescentaria um importante aliado: o arménio Isaac. Iremos refazer esse longo trajecto no actual Punjab. Góis e confrades levaram um mês a atingir Attock Khurd, a primeira etapa do percurso. A nós, bastar-nos-ão umas quantas horas. Mas antes de apreciarmos o perfil amuralhado do forte local, sobranceiro ao rio Indo, teremos, quilómetros antes, oportunidade de conhecer de perto outra icónica peça da arquitectura militar. Rohtas, fortaleza também, tem o selo Património da Humanidade. Após a passagem do Indo/Cabul, pouca estrada nos resta até chegarmos à cidade de Peshawar, território de predominância tribal.
Noite – Dormida no Hotel Serena ou similar.
A história de Peshawar remonta, pelo menos, a 539 a.C., o que faz dela uma das cidades mais antigas do sul da Ásia. Para mergulharmos nessa realidade, façamos uma visita de estudo ao Museu Ghandara, pois – recordemo-lo – toda esta região foi outrora expoente da cultura budista. Após uma visita ao bastião do forte de Bela Hisar, embrenhemo-nos na cidade velha, local que me traz à memória gratas recordações. Fui aí incontáveis vezes alvo da hospitalidade dos patanes – gente de armas e barba rija, mas ‘amiga do seu amigo’. Comprovemos essa tradição caminhando pelas ruelas estreitas. Um dos aspectos mais cativantes do icónico Qissa Khawani Bazaar é o seu significado histórico: testemunhou variados eventos ao longo dos tempos e viu passar inúmeros comerciantes da Ásia Central, já que era etapa na Rota da Seda.
Noite – Dormida no Hotel Serena ou similar
Peshawar (Créditos: Shutterstock Inc.)
Espera-nos hoje longa e diversificada jornada. Se Bento de Goís e companheiros atravessaram o passo de Kyber e chegaram a Cabul, nós – devido a constrangimentos de natureza geopolítica – manter-nos-emos no Paquistão, mas com a bússola apontada a norte. Efectuaremos uma trajectória paralela àquela a do leigo jesuíta, que após prolongada estada na capital afegã – oito meses – subiu pela província central até ao nortenho e remoto Badakshan, antes de virar a oeste pelo corredor de Wakan. Obrigatória vista de olhos a Takht-i-Bahi, complexo monástico budista datado do século I a.C, antes do colo de Lowari – facilmente transponível graças a um túnel – nos depositar no vale de Chitral. Góis embora não tenha entrado em contacto directo, é o primeiro europeu a mencionar a existência dos Kafir Kalash, peculiar etnia que habita ainda hoje três vales perto de Chitral. Com eles partilhei vários meses da minha vivência asiática: riquíssima e inesquecível experiência. É na vizinha pequena cidade de Chitral que hoje pernoitaremos.
Noite – Dormida no Hotel Hindukush Heights ou similar
Chitral
Diz a lenda que a tropa de Alexandre, ‘o Grande’ explica as características caucasianas, pele e olhos claros, dos Kalash mas, na verdade, a origem dessa etnia permanece até hoje um enigma. Profundamente animista e politeísta, a religião tradicional dos Kalash deriva de um ramo hinduísta. Tive o privilégio de conviver com os Kalash durante todo um Outono/Inverno, aprendendo a sua língua e tradições numa altura em que sofriam imensa pressão da parte dos vizinhos muçulmanos e avulsos missionários cristãos norte-americanos. Uns e outros queriam que eles se convertessem ao deus único. Felizmente, eles são hoje minoria protegida pelo Estado paquistanês – totalizam apenas 3 mil – e o bullying aparenta ser coisa do passado. Singular povo, sem dúvida. Beberemos do seu vinho e comeremos do seu delicioso pão de nozes. Conhecer de perto os Kalash será – garanto-vos – um dos pontos mais altos desta viagem.
Noite – Dormida no Kalash Local Guesthouse ou similar.
Nova etapa nos espera, depois de desvendarmos alguns segredos da cidadezinha de Chitral. O folclore local dá grande ênfase aos seres sobrenaturais, e a região é por vezes designada de “Peristan” devido a uma crença comum nas fadas (peri) que habitam as altas montanhas. Oportunidade de visitar o museu e a fortaleza locais. Seguimos as margens do rio Chitral. Mastuj, local de pernoita, é agradável e verdejante o vilarejo. Se o procurarmos no mapa, constatamos que não dista muito do corredor de Wakhan percorrido por Bento de Góis, depois das desventuras em Charikar, terras de minas de ferro, e Taloqan, que o açoriano identifica nas imediações do enigmático Reino de Calcia, habitado por gente de “cabelo e barba ruivos, como os alemães”. Ou seja, no fundo cumprimos o seu itinerário, só que um pouco mais a sul. Magnífico o cenário, quase de carta postal, numa antevisão do que iremos encontrar em Hunza, centenas de quilómetros a nordeste.
Noite – Dormida no Local Guesthouses ou similar.
De Mastuj enveredamos para sul rumo ao passo de Shandur (3.800 metros). Há aqui um campo de polo, o mais alto do mundo, e um lago a servir de idílico cenário. Ainda a uma altitude considerável, ladeamos o rio Gilgit até ao afamado vale de Phander. A cor dos rios, riachos e pequenos lagos varia entre o verde-esmeralda e o azul-turquesa; mantêm-se verdejantes os prados e a neve cobre os picos das montanhas. Um paraíso para os amantes da natureza; encaixa-lhe bem o epíteto “Pequena Caxemira”.
Noite – Dormida no Hotel The Rover by Roomy ou similar.
Saída para Gupis, onde teremos novos motivos de interesse para breves paragens: uma fortaleza, o lago Khatli, círculos de pedra megalíticos e a pitoresca aldeia de Shingalote. Seguimos até Gilgit por estradas sinuosas que oferecem, curva após curva, panorâmicas de tirar o fôlego. Sempre com o rio à vista prosseguimos até Karimabad, com paragem obrigatória em Gilgit, a mais importante povoação do extremo norte do Paquistão. Gilgit era entreposto na Rota da Seda, através do qual o budismo se espalhou pelo sul da Ásia. Dois famosos peregrinos chineses, Faxian e Xuanzang, por ali passaram, como o testemunha a imponente estátua de Buda gravada na rocha que ali encontramos – no sítio arqueológico de Kargah Buddha. A região de Gilgit apresenta algumas das paisagens mais dramáticas do planeta: um caminho cavado na dura rocha das montanhas-agulha do Hindu Kush que, devido à sua natureza geológica, dá a impressão de encerrar os povos que habitam os apertados vales que antecedem o vale de Hunza, do qual nos vamos progressivamente aproximando.
Noite – Dormida no Hotel Serena ou similar.
Hunza é conhecida como o Paraíso na Terra e os seus habitantes – maioritariamente ismaelitas, i.e, seguidores de Aga Khan – são reputados pela sua longevidade. Um vale profundo rodeado por dramáticos picos montanhosos, a extrema beleza da paisagem fala por si. Karimabad, um pouco acima da sua cara metade Aliabad, pois de socalcos se faz este fantástico local, tem ruas empedradas à moda das cidades medievais europeias. Afamadas são as duas protectoras fortalezas: Altit e Baltit, ambas milenares; ambas fascinantes no seu risco arquitectónico. Durante séculos, viajantes e comerciantes foram atraídos para o Vale Hunza devido à sua beleza natural e pureza dos ares. Abundam glaciares, pomares (de cerejeiras e damasqueiros) e lagos turquesa. Um passeio pela região irá proporcionar-nos o contacto com uma cultura singular. E não faltam motivos de interesse – o vale de Nagar, o lago de Attabad., etc.
Noite – Dormida no Hotel Serena ou similar.
Lago de Attabad, enquadrado pelas paisagens montanhosas do Vale do Hunza
De manhã cedo partimos para a pitoresca povoação de Passu, onde tomaremos o pequeno almoço enquanto avistamos os afamados picos agulha e o glaciar de Passu. Na viagem de regresso visitaremos a tradicional ponte suspensa de Hussaini e a histórica aldeia de Gulmit, que mantém ainda um estilo de vida muito rural. No início da tarde viajaremos até Skardu, capital do Baltistão – conhecido entre os portugueses de outrora como o Pequeno Tibete. Almoçaremos no miradouro do Rakaposhi, cadeia montanhosa com vales verdejantes e picos imponentes, oferecendo uma variedade de trilhos panorâmicos.
Noite – Dormida no Hotel Khar ou similar.
De manhã, transporte para o aeroporto de Skardu para voo interno com destino a Islamabad. Da parte da tarde efectuaremos uma visita turística à capital paquistanesa, Islamabad: a majestosa Mesquita Faisal, o Parque Nacional de Shakarparian – uma colina onde se situa o Monumento do Paquistão – e o Museu do Património Lok Virsa – o local ideal para conhecer a etnografia, a história, a cultura das diferentes comunidades que compõem o Paquistão.
Nota importante: Em caso de cancelamento do voo, faremos uma longa viagem por terra, de Skardu até Islamabad.
Noite – Dormida no Hotel Serena ou similar
Ainda de madrugada transporte para o aeroporto de Islamabad para voo de regresso a Portugal marcado para às 05h25, via Istambul. Chegada a Portugal. Fim da viagem.
Digamos que o meu verdadeiro baptismo asiático (onde já lá vai!), depois de uma proverbial introdução hindustânica, aconteceu no norte do subcontinente e nos territórios da Ásia Central, mais propriamente em partes consideráveis da Rota da Seda.
A primeira entrada na China, em Novembro de 1988 – após uma longa temporada no norte do Paquistão – foi pela sua mais emblemática fronteira, limitando-me a seguir a rota das caravanas dos mercadores que outrora demandavam o Cataio em busca da seda e outras raridades orientais, tendo como etapa fundamental o grande oásis do Turquestão chinês, hoje província de Xinjiang.
Ao contactar aquela terra árida habitada por gente de aparência agreste mas dócil no trato, vieram‐me à mente exóticas recordações alicerçadas no mundo literário da minha adolescência, onde se fundiam os universos de Nicolau Gogol, Ismael Kadare e, sobretudo, Panait Istrati, um novelista romeno que me tinha duplamente fascinado: por aquilo que escrevera e pelo modo como vivera. Ou seria porque, afinal, se limitara a escrever o que muito simplesmente tinha vivido? A verdade é que Istrati não passava de um andarilho que, um dia, doente, à beira do desespero, se lembrou de contar as suas histórias ao humanista e escritor Romain Roland. A partir daí as aventuras do romeno apareceriam nos jornais e divulgar‐se‐iam no mundo francófono. Os livros, esses, viriam a seguir.
Recordo os primeiros passos na labiríntica e milenar cidade de Kashgar: uma entrada às cegas num mundo irreal com um ambiente peculiaríssimo. Era como se o tempo deixasse de ter sentido; simplesmente não existisse. Em muitos aspectos nada em Kashgar tinha mudado desde a época medieval…
De tal forma me deixei enfeitiçar por aquela região que depressa se esvaziaram os três meses do visto chinês, tendo eu regressado ao Paquistão, por duas vezes, para o renovar e de novo me embrenhar no inalterado Xinjiang para continuar a aprender a língua uigur e cultivar amizades entre pessoas de diferentes etnias.
Numa das minhas incursões pelo interior do Xinjiang consegui boleia na camioneta de uma trupe de cantores, músicos e dançarinos que iam em digressão. Durante quinze dias acompanhei‐os num périplo por uma região interdita a todos os estrangeiros, sem excepção. Assim, passando umas vezes por tajique, outras por russo, outras ainda por elemento da companhia, consegui evitar o controlo das autoridades em Iarcanda, Kargilik e Khotan, precisamente as localidades visitadas por Bento de Góis aquando da sua estreia no universo das cidades-oásis.
Tão valiosas experiências registei-as nas páginas de sucessivos diários que aguardam ainda publicação, tendo revelando partes das mesmas nas muitas crónicas e artigos que escrevi em jornais e revistas. Finalmente, compilei algumas delas e inclui-as na obra “Oriente Distante”, editada pela Oficina do Livro.
Recordo-me, por exemplo, de um Natal passado no dormitório do Qinibagh (antigo consulado britânico transformado em hostel) com outros viajantes, e que teve ceia japonesa seguida de uns biscoitos de fabrico local e um muito adocicado Turfan Port Wine (imitação do nosso vinho do Porto), que serviram na perfeição de sobremesa.
Qinibagh era o nosso lar e Kashgar a cidade que nos tinha enfeitiçado
Levá-los-ei numa aventura de milhares de quilómetros através de uma das mais espectaculares e deslumbrantes paisagens do planeta. Começaremos pela cidade de Lahore com um peso e uma inegável importância histórica, pois ali esteve sedeado durante décadas o poder mogol.
Peshawar será também peça central, pois mantém uma atmosfera singular e carismáticos ícones como o National Hotel, um desses locais onde as teias nunca chegaram a montar arraiais apesar do correr dos anos. Foi em tempos, o National Hotel, a catedral, ponto de encontro dos aventureiros e hippies que faziam o caminho para a Índia, via Cabul, na ida década de 1970, que a malfadada guerra do Afeganistão (a primeira delas) veio pôr fim.
Percorreremos os pitorescos vales desse noroeste milenarmente budista (os vestígios arqueológicos estão à vista) e, subindo ainda mais na rosa-dos-ventos, com ligeiras inflecções a leste e a oeste, iremos ao encontro de diversos povos de estirpe indo-ariana que ao longo dos tempos foram sendo convertidos ao Islão.
Animistas, de corpo e alma e vivas tradições, ainda e apesar de tudo, restam os Kafir Kalash do vale de Chitral. A visita às aldeias onde habitam é um dos pontos altos da nossa viagem.
Vários meses aí passei, transitando a cavalo as montanhas do Badakhsan, de um lado e do outro da fronteira, prestando assistência humanitária com uma equipa francesa dos MSF em aldeolas perdidas, numa altura em que conselheiros militares norte‐americanos – sedeados em Peshawar, quantas das vezes disfarçados de meros viajantes – preparavam e armavam até aos dentes centos de mujahidins que anos mais tarde se transformariam em fanáticos talibãs;
Mais acima, no magnífico de Vale de Hunza, conviveremos com os pacatos, tolerantes e hospitaleiros ismaelitas (ramo do Islão xiita). Apesar da beleza ímpar daquele mítico vale, eram tão raros os europeus nessas paragens que – lembro-me – perguntaram-me por diversas vezes se eu era japonês… De facto, nessa época eram os japoneses reis incontestáveis da viagem, sobretudo no norte do Paquistão e em todo o Xinjiang.
Cruzei a fronteira sino-paquistanesa, via Passo de Kunjarab, dois meses depois de ela ter sido aberta, concluída que estava a ambiciosa e hércula tarefa que foi a construção da Estrada de Karakurom que aproximou definitivamente o Paquistão da China.
Centenas de metros mais abaixo na cota, passaremos toda uma pantanosa área pejada de inúmeros riachos com a povoação de Tashkurgan a servir de nervo vital: o imenso lar das marmotas, do raro leopardo das neves e dos tajiques e quirguizes, antigos adoradores de águias convertidos à pastorícia, sem abdicarem, contudo, das suas vidas seminómadas e particularidades étnico-culturais.
Aproximamo-nos dos oásis da Rota da Seda, o caminho de acesso ao mítico Cataio.
Durante séculos, encontrar a localização exacta desse reino, que, no entender da cristandade, constituiria um poderoso aliado na luta contra o Islão, foi uma preocupação constante; dir‐se‐ia mesmo, uma obsessão.
A cidade de Kashgar é um desses locais contagiantes que convidam à reincidência. Contrariando a máxima, ‘nunca voltes ao sítio onde foste feliz’, regressei a Kashgar, provavelmente, uma dezena de vezes. Verdadeiro ponto de encontro da gente local e dos arredores, dividida em diferentes secções, a imensa Feira de Domingo – o Iekshenbe Bazaar – oferece ainda opções para a mais exigente procura. Há o mercado da madeira e o da roupa em segunda mão; o mercado dos frutos secos e o do açúcar cristalizado; o mercado do pão e o dos legumes; e também o dos tecidos, dos curtumes, dos gorros e das carpetes. E quando se julga que tudo está visto, eis‐nos perante o mercado dos melões – montanhas de melões vendidos ao desbarato!
Kashgar fervilha ainda com misteres antiquíssimos que nos transportam de imediato para a atmosfera dos contos de Dickens e a dramatologia de Brecht. Refiro‐me aos ferreiros batendo a chapa e a alpaca que decora os baús dourados pousados na rua, junto às respectivas oficinas; aos carpinteiros transformando troncos de bétula em utensílios de cozinha, berços de bebé e demais móveis; aos barbeiros; aos sapateiros; aos construtores de instrumentos musicais incrustando na madeira pedaços de corno e osso de iaque; aos cardadores de algodão que mais parecem tocadores de berimbau.
São essas cidades – Kashgar, mas também Iarcanda, Khotan, Aksu, Kuqa e Turfan – que iremos percorrer e apreciar devidamente, indo de oásis em oásis, sempre com o imenso deserto pelo meio, e, por companhia e a amenizar a aridez da paisagem, os belos píncaros nevados de Tian Shan, as ditas “Montanhas Celestiais”.
Muitos segredos nos escondem os areais e dunas do deserto de Taklamakan!
Aldeias, cidades, reinos inteiros enterrados ao longo de milénios – como o reino de Loulan –, até que os exploradores de finais do século XIX/inícios do século XX os viessem desenterrar, transportando nos alforges para os museus dos respectivos países inúmeras antiguidades de incalculável valor. Entre outros, o húngaro-britânico Aurel Stein, o alemão Albert von Le Coq, o sueco Sven Heiden, o francês Paul Pelliot, o russo Nikolay Przhevalsky ou o japonês Otani Kozui.
Todos, sem excepção, seguiram os passos de Bento de Góis e na sua epopeia buscaram inspiração, embora poucos o admitam nos escritos que nos legaram.
Teremos oportunidade de apreciar diversos e intrincados complexos de grutas – que preservam exemplos vivos da mais ancestral e requintada arte budista – e ruínas de cidades fortificadas, algumas bem perto das ‘grandes muralhas chinesas’, sim, no plural, porque ainda existem, quais fantasmas no deserto e mais a oeste na paisagem, resquícios da Grande Muralha da Dinastia Han, que de certa forma complementa a congénere da Dinastia Ming, a mais conhecida e mais recente, às portas da qual deixou as ossadas o nosso Bento de Góis.
Esta é verdadeiramente uma viagem com todos. A ementa perfeita. Teremos num só ‘pacote’ panorâmicas de perder o folêgo – glaciares e picos-agulha com neve ou sem ela, lagos cristalinos e pedaços de montanha que a erosão esculpiu – e um variado e colorido mosaico de povos e culturas de diferentes crenças, animismos, islões ou budismos; e até um grande quinhão da Rota da Seda, com todos os seus tesouros, nos caberá em sorte. De facto, não se pode pedir muito mais.
Aceite este meu desafio e estou certo que não se vai arrepender.
Venha comigo evocar a epopeia de Bento de Góis!
Joaquim Magalhães de Castro
PREÇO POR PESSOA EM QUARTO DUPLO: 5.995€
SUPLEMENTO Quarto individual: 825€
SINAL: 1.800€
O PREÇO INCLUI:
• Assistência nas formalidades de embarque;
• Transfer privativo Porto / Lisboa / Porto;
• Passagem aérea em classe económica Lisboa / Lahore e Pequim / Lisboa em voo Emirates Airlines, com direito a uma peça de bagagem até 30kg e respetivas taxas de aeroporto, segurança e combustível (80€*):
Lisboa – Dubai (duração aproximada 07h35)
Dubai – Lahore (duração aproximada 03h05)
Pequim – Dubai (duração aproximada 08h10)
Dubai – Lisboa (duração aproximada 08h15);
• Voo interno em classe económica Kuche / Turpan e Jiayuguan / Lanzhou / Pequim com direito a 20kg de bagagem e respetivas taxas de aeroporto, segurança e combustível (60€*):
Kuche – Turpan (duração aproximada 01h10)
Jiayuguan – Lanzhou (duração aproximada 01h20)
Lanzhou – Pequim (duração aproximada 02h20)
• Circuito em autocarro de turismo;
• Viagem de comboio entre Turpan e Dunhuang em classe económica;
• Alojamento e pequeno-almoço nos hotéis mencionados ou similares;
• Pensão completa, desde o almoço do 2º ao almoço do 22º dia, excluindo o almoço do 11º e 20º dias (19 almoços e 20 jantares);
• Acompanhamento por nosso Autor durante todo o circuito, desde e até um dos locais de partida (Porto ou Lisboa) – Joaquim Magalhães de Castro;
• Acompanhamento por guia Pinto Lopes Viagens durante todo o circuito, desde e até um dos locais de partida (Porto ou Lisboa)
• Guia local falando Inglês no Paquistão e China e em espanhol em Pequim;
• Visitas e entradas conforme mencionadas no programa;
• Visto de entrada no Paquistão (42 usd);
• Gratificações a guias e motoristas locais;
• Taxas hoteleiras, serviços e IVA;
• Seguro Multiviagens PLUS.
O PREÇO EXCLUI:
• Bebidas às refeições;
• Opcionais, extras de carácter particular e tudo o que não estiver mencionado como incluído.
• Condições específicas de cancelamento por parte do viajante:
– Até aos 75 dias antes da partida: 0
– De 74 a 45 dias antes da partida: 30% do custo total da viagem;
– De 44 a 30 dias antes da partida: 50% do custo total da viagem;
– De 29 a 15 dias antes da partida: 75% do custo total da viagem;
– De 14 a 0 dias antes da partida: 100% do custo total da viagem.
Salvaguardam-se as situações cobertas ao abrigo da nossa apólice de seguro de viagem no capítulo Cancelamento Antecipado.
• Condições gerais Pinto Lopes Viagens: Consulte aqui
• Informação relativa aos nossos Seguros de Viagem: Consulte aqui
• Recomendamos Consulta do Viajante;
• Joaquim Magalhães de Castro rejeita a grafia do NAO.
• Preço da viagem sujeito a flutuações cambiais.
• Programa elaborado a 9 de janeiro de 2026.
• A extraordinária viagem que vos proponho abrange um espaço geográfico bastante variado que nos levará das planícies do Punjab paquistanês aos idílicos vales do Hindukush e daí ao planalto Tajique;
• Deve levar consigo vestuário adequado para condições de frio seco;
• Deve sempre ter em mente que as instalações e serviços hoteleiros, e também a alimentação, podem não ser do mesmo padrão a que está habituado;
• O Paquistão não é propriamente um destino turístico, não obstante as condições de alojamento serem bastante boas, sobretudo em Lahore e Peshawar ao melhor nível internacional. Nos restantes locais a oferta pode ficar aquém do esperado salvaguardando que em algumas das Guest Houses previstas, o wc será partilhado;
• O mesmo irá acontecer com alguns locais de refeição em percurso que serão servidos, por vezes, em estruturas muito simples e básicas;
• Os pequenos almoços em alguns hotéis estão em conformidade com a cultura local, pelo que produtos como café, pão, manteiga e fruta poderão não estar disponíveis;
• A grande altitude não será problema, pois no Hindokush viajaremos entre vales e depararemos apenas com um passo de montanha significativo: o Kunjarab Pass, precisamente na fronteira indo-paquistanesa;
• Se não é problema a altitude, pode-o ser o clima extremamente seco e as poeiras do deserto do Turquestão. Por isso, convém levar chapéu, creme para os lábios e um lenço/cachecol para proteger a boca e o nariz;
• Recordar ainda que esta é uma viagem que obriga, de quando em vez, a madrugar e na qual se percorrem várias centenas de quilómetros por dia;
• Compensa o cansaço (e até algum, por vezes, desconforto) a beleza e magnitude das paisagens que desfilam perante os nossos olhos.
• Obrigatório visto e Passaporte com validade mínima de 6 meses após a data de regresso, cuja fotocópia deve enviar previamente para a agência.
*Chamada para a rede fixa nacional